O que aconteceu quando meu pai assumiu ser uma mulher transexual

Eu não consigo lembrar o momento exato em que meu pai nos contou ser uma mulher transexual. Eu não sei como ele chegou até mim e disse isso ou sequer usou a palavra que definiria sua questão de gênero. Eu só lembro que isso fez sentido quando aconteceu.


Eu estava com 16 anos quando um quebra cabeça começou a se montar na minha cabeça e me vieram à cabeça os momentos em que ele usava saia no final do dia para se sentir mais confortável, por estar de calça durante todo o dia. Quando ele escovava meu cabelo e chorava ao dizer que queria ter um cabelo como o meu. Para as pessoas de fora, isso pode soar como uma revelação chocante, mas para mim não foi uma revelação e muito menos chocante.

Meu pai passou por toda a transição para que seu corpo correspondesse à identidade de gênero de uma mulher, inclusive com uma nova certidão de nascimento e passaporte. Eu a chamo de papai, porque isso é o que ele é: meu pai; embora eu use o pronome feminino porque agora ela é uma mulher. Eu não sei o que minha mãe acharia disso tudo, pois ela morreu quando eu tinha 19 anos e, pouco depois, meu pai fez a transição.


É uma resposta que eu deveria ter procurado. Mas, até recentemente, isso é algo que me recusei a fazer. Ao invés disso, me agarrei ao que sei: o quão felizes todos nós estávamos em nossa caótica casa ''de cabeça para baixo'', onde a sala de estar estava no último andar, e ''eu te amo'' era a frase mais comum. Meus pais diziam isso uns aos outros diariamente, às vezes duas vezes – assim como inundaram eu e minha irmã, Rebecca, com afeto.

No começo do relacionamento dos meus pais, eles resolveram tomar LSD juntos para ver onde a viagem os levaria. Mamãe passou muito tempo pulando alegremente para cima e para baixo em sua cama. Mas papai ficou parado, fascinado pelo espelho pendurado no corredor. Ele confessou seu segredo naquela noite e minha mãe lhe disse que suas qualidades profundamente femininas eram uma das coisas que ela mais gostava dele. Isso continuou ao longo de seus 33 anos de casamento – desde a adolescência como rebeldes hippies, vivendo em uma comunidade, até ambos conquistarem uma carreira de sucesso com duas filhas.


Minha mãe descobriu ter um tumor cerebral depois de sofrer dois ataques cardíacos. Ela teve mais seis meses de vida e, quando morreu, nem parecida verdade. Isso me ensinou o que é perder alguém, de fato. Então, quando papai nos contou seis meses depois da morte da mamãe que ele pretendia fazer a transição, eu aceitei. Eu simplesmente vi isso como algo que não tinha nada a ver comigo: era a própria luta do meu pai com ele mesmo e algo que, sem dúvida, o faria mais feliz.


Papai vinha vestindo roupas neutras durante vários anos e sua transição era puramente hormonal, sem nenhuma cirurgia, então não foi uma mudança repentina. Era tão gradual que eu costumava pensar que sua aparência não tinha alterado tanto assim. Quando se ama alguém, você vê além de sua aparência física. Eu reconheço seus trejeitos, a maneira como seus olhos se alargam quando ele está contando uma história ou como sua risada ronca através de uma sala.

Então eu olho para trás, pego as fotografias antigas e vejo uma pessoa completamente diferente olhando para mim. Alguém que eu não conheço mais e não tenho visto há muito tempo. Quando eu faço, sou atingida com esse desejo, de querer que a versão do meu pai de volta. Isso me bate bem no estômago, e de repente eu me pergunto: ''Estou tão bem com tudo isso como eu aparento estar?'' Disseram-me que isso é um sentimento natural, que quando alguém faz essa transição há, é claro, coisas que vão ser perdidas – e tudo bem chorar por isso; A raiva é uma emoção que eu definitivamente não sinto. Na verdade, à medida que envelheço, sinto mais culpa pelos sacrifícios que meu pai deve ter feito por mim. Ele escondeu sua identidade por tanto tempo – e isso pode deixar uma pessoa em lugares incrivelmente obscuros. Para garantir que eu tivesse uma infância tão feliz, o que ela tinha que esconder?


''Como um homem, eu estava indo muito bem no mundo: eu tinha uma bela esposa, carreira de sucesso e crianças incríveis. Eu não queria perder tudo isso – eu pensei que seria rejeitado por todos vocês'', me disse ele uma vez.

Não havia modelos de pessoas trans para a sociedade e muito poucas leis em vigor para protegê-las. Foi somente em abril de 2005 que a Lei de Reconhecimento de Gênero entrou em vigor, permitindo que as pessoas mudassem legalmente seu gênero no Reino Unido – minha mãe havia morrido em fevereiro daquele ano.


Havia alguns momentos que papai saía de casa, com sua saia favorita, para ser, simplesmente, abusado verbalmente na rua. Membros da nossa família, incluindo minha avó materna, se recusaram a reconhecer o novo nome do pai, e pessoas com quem ele havia trabalhado no passado desapareceram. Em comparação com o que os outros passam, isso não é tão ruim: meu pai está bastante bem, trabalha em uma indústria criativa e está cercado por pessoas que amam e cuidam dele.

Olhando em volta para minha própria família, está claro que a transição de papai trouxe apenas positividade. Estamos todos mais perto do que nunca. Então, se ela estivesse viva hoje, neste mundo muito mais aberto e receptivo, minha mãe teria pensado diferente? É uma pergunta que eu nunca vou ter a resposta, embora eu esteja quase certa que a resposta seria sim.



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