Mulher ''adota'' 6 crianças em programa: ''Pude mudar a vida delas''

Consegui ficar com eles e não tive mais coragem de separar. Quando chegaram à minha casa, não sabiam ler, escrever nem sequer comer com garfo e faca'', afirma Judite de Andrade Zacarquim, 69.


A aposentada ficou durante oito anos com quatro crianças em sua casa, todos irmãos, então entre seis e 12 anos de idade. A mais velha, que hoje já passou dos 21 anos, ainda frequenta a casa dela.

Há um ano e meio, Judite pegou outros dois meninos para criar, de cinco e seis anos. ''São felizes e inteligentes'', elogia.

''É uma troca entre o que essas crianças me dão e o que eu dou para elas. Não se trata só de arrumar uma cama, oferecer um prato de comida e achar que é o suficiente'', conta, em entrevista, por telefone, de Cascavel (PR).

Há dez anos, Judite é uma das 142 pessoas cadastradas no programa Família Acolhedora, que abriga 225 crianças e jovens até 21 anos em casas da comarca de Cascavel, cidade de 315 mil habitantes na região oeste do Paraná, a 500 km de Curitiba.

O projeto coloca crianças que se encontrem em situação de risco, como negligência, abusos e abandonos, com pessoas cadastradas que fiquem responsáveis por elas até que sejam encaminhadas para a adoção ou atinjam 21 anos de idade.

Exemplo no programa, a aposentada diz que teve apoio de seus filhos biológicos. ''Tenho três filhos biológicos e dois, que eram solteiros no início, me ajudaram muito. Fiz com que as crianças vivessem em família, frequentassem a igreja e tivessem outras atividades, como os bombeiros-mirins e os escoteiros, para ajudar na socialização'', afirma.

Segundo Judite, ser parte de uma Família Acolhedora modificou a forma como ela enxerga o mundo. Ela se adaptou à situação dos quatro irmãos, ensinando coisas simples do dia a dia.

''Foi gratificante, porque eu pude mudar a história de vida deles, dando uma oportunidade para que sejam alguém na vida, para que vejam o outro lado da vida, de ter o prazer e a chance de escolher um caminho melhor'', diz, citando a negligência e os abusos que sofreram por parte do pai natural. ''Além disso, coisas que eram muito valiosas para mim, como ter uma casa impecável, perderam o valor''.

Na opinião da aposentada, sua vida seria muito chata sem as crianças. ''Não tenho tempo para procurar a dor. E eu levo eles para tudo o que eu faço. É preciso ter amor no coração para se envolver nas atividades do dia a dia, mas sem fazer programas para o futuro, pois a situação pode mudar a qualquer momento com uma adoção'', afirma.

Neusa Cerutti, coordenadora do programa, diz que crianças pequenas geram menos preocupação, ''pois imediatamente são adotadas''. ''Acima dos nove anos, porém, torna-se mais complicado. Em muitos casos, uma criança de oito ou nove anos é acolhida [por uma Família Acolhedora] e permanece até os 21 anos. Por mais que não haja uma formalização, eles acabaram ganhando uma família de verdade'', diz Cerutti.


Programa reduz custos de abrigos

Em 2016, a Prefeitura de Cascavel investiu cerca de R$ 3,3 milhões para a manutenção do programa, vinculado à Secretaria de Assistência Social. Estima-se que, nas bolsas para as famílias, o gasto seja de R$ 200 mil por mês, além da folha de pagamento da equipe e da manutenção da estrutura.

A administração municipal compara que, se fossem mantidos 20 abrigos no município, o custo seria de aproximadamente R$ 14 milhões por ano.

Instituído em 2006 em seu formato atual, o projeto praticamente zerou o número de crianças e jovens das ruas de Cascavel. ''Tanto as instituições de acolhimento quanto as chamadas casas-lares (que reúnem até dez crianças) têm apenas os jovens que não aceitaram integrar a iniciativa'', explica Luciano Machado de Souza, promotor de Justiça da Área de Proteção da Infância e da Juventude da comarca de Cascavel.

Desde 2006, 927 casos foram encaminhados para essas famílias e, atualmente, Cascavel conta com mais famílias cadastradas do que crianças disponíveis. ''Hoje, temos 225 acolhidos e 142 famílias acolhedoras, além de outras 40 que estão sendo preparadas'', explica Cerutti. Ela já apresentou o modelo do programa no Ministério da Justiça em uma tentativa de expandir a prática para outras cidades e Estados.

A legislação oferece uma ajuda de custo às famílias voluntárias (R$ 800 por criança e R$ 1.200 se houver algum tipo de necessidade especial). ''Não é qualquer família que pode integrar o programa. Há necessidade de passar por uma avaliação bem rigorosa, permanecer em um cadastro de reserva e, quando há uma criança ou adolescente, faz-se uma análise se o perfil da família combina'', diz Cerutti.

Segundo a coordenadora, pessoas que se inscrevem apenas por interesse financeiro costumam desistir quando conhecem a iniciativa com mais profundidade.


Saída para quem não consegue ser adotado

O programa surgiu com o propósito de oferecer uma referência de família aos jovens e crianças em situação de risco do município até que fossem encaminhados para a adoção ou pudessem retornar para a família original. Na prática, a ideia é gerar uma nova oportunidade na vida desses jovens, especialmente casos em que a adoção se torna difícil ou complexa.

São 7.453 crianças e adolescentes nesta situação frente a 39.394 pretendentes, segundo o Cadastro Nacional de Adoção, coordenado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça). No Paraná, especificamente, são mais de 4.000 pretendentes para 876 crianças.

No entanto, na medida em que essas crianças ficam mais velhas, o interesse dos adotantes diminui. Dos quase 40 mil interessados, apenas 5.332 aceitam crianças até cinco anos; 479 gostariam de adotar crianças até os dez anos; e somente 26 ficariam com jovens até 17 anos.

De acordo com Cerutti, o maior índice de adolescentes acolhidos está justamente na faixa etária de menor interesse dos pretendentes. ''Muitos destituídos estão aptos para adoção, mas é difícil encontrar uma família. Por isso optamos por esse modelo que oferece uma oportunidade para adolescentes que iriam crescer e se tornarem maiores de idade em instituições do Estado'', afirma.

Recheada de cooperativas e de sítios, Cascavel apresenta casos de sucesso, mesmo com adolescentes em tratamento de drogadição, em abstinência ou que cometeram atos infracionais. ''Fico impressionada com a qualidade das famílias da zona rural ao acolher esses jovens. Como eles trabalham na própria propriedade, o adolescente – fruto de uma família sem estrutura adequada – acaba sendo atraído por um pai e mãe sempre por perto. E os resultados são fantásticos'', diz a coordenadora.

O promotor Luciano ressalta que há uma análise específica para identificar como proceder. ''Em alguns casos, buscamos que fiquem o mais próximo possível da realidade onde viviam, mas, em outros, optamos por levá-los para um ambiente diferente. O mais importante é: eles precisam de um ambiente de conforto, de afeto'', diz.

De acordo com Cerutti, em torno de 40% dos jovens costumam voltar para suas famílias de origem, 40% ficam disponíveis para adoção e os 20% restantes são acolhidos no município.

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