'A Cabana' é acusado de heresia por parte dos evangélicos

A aposentada Rosa Maria, 67 anos, achou Deus a sua cara: "É gordinha e pretinha como eu". Ela ainda está com os olhos inchados de "chorar mais que cortando cebola" com "A Cabana", após sessão lotada no shopping Metrô Santa Cruz, zona sul de São Paulo.


O filme traz Octavia Spencer como um Ser Supremo que gosta de fazer torta de maçã, ouvir Neil Young e jogar conversa fora com o filho Jesus, tipo árabe barbudo de jeans e camisa xadrez, e o Espírito Santo, uma jovem oriental que atende por Sarayu.

A evangélica Rosa faz parte do público-alvo da distribuidora Paris Filmes, que contratou a 360 Way Up, empresa focada no marketing cristão, para ajudar no lançamento.

A estreia, que ocorreu no dia 8, foi promissora: 544.641 espectadores em 670 salas de cinema nos primeiros quatro dias em cartaz, o bastante para garantir a "A Cabana" a segunda maior bilheteria do fim de semana no Brasil, só atrás de "A Bela e a Fera". Poderia ter sido melhor.




Os motivos que levaram Rosa a gostar tanto da obra, afinal, são os mesmos que afastam outros tantos evangélicos.

Dar uma forma humana a Deus é uma das muitas heresias que povoam "A Cabana", segundo correntes teológicas que guiam a fé evangélica – o homem feito à imagem e semelhança de Deus, como diz a Bíblia, significa que "somos obras de Suas mãos, mas não a personificação d'Ele", explica o teólogo Marcelo Rebello.

Nos EUA, vários blogs se dedicaram a malhar primeiro o livro do canadense William P. Young, um best-seller que vendeu mais de 25 milhões de cópias, e agora o filme homônimo. O debate chegou ao "Christian Post", referência global de jornalismo religioso, que, em março, publicou o artigo "Seria 'A Cabana' Cristão ou New Age?" Conclusão: "A igreja americana está faminta por discernimento e sufocando com heresia".


Autor de "Burning Down the Shack" (queimando a cabana), James DeYoung vê como maior "despautério bíblico" a "doutrina da salvação universal" que permeia a narrativa. Em miúdos: frases do Deus de "A Cabana" sustentam que Seu amor é grande o bastante para salvar a todos, não importa o quanto se errou e se houve arrependimento.

Para DeYoung, papo de herege. "Assim não há a noção de inferno permanente, nem para o Diabo e seus anjos. A história não diz como as pessoas podem vir a Deus e achar perdão", afirma ao Boas Escolhas Inc.

O enredo: Mack (Sam Worthington), um pai de família pouco crente, é convidado por Deus (mulher "negra, enorme e sorridente", como descreve o livro) para voltar à cabana que foi palco de uma tragédia familiar três anos antes. A certa altura, confessa que sempre pensou no Todo-Poderoso com um velhote de barba branca. "Acho que esse é Papai Noel", rebate Ele/Ela.

"O principal problema teológico da narrativa é a forma como a Trindade é retratada: um Deus que não é onisciente, um Jesus que não é divino e um Espírito Santo que não regenera o pecador", diz à reportagem Leonardo Galdino.

Ele criticou o livro no blog "Voltemos ao Evangelho". "Torna-se patente o desprezo pela igreja e pela adoração corporativa, ressaltando-se e a valorização da experiência pessoal, como bem reza a cartilha pós-moderna", escreveu, destacando um trecho: "Mack estava farto [...] de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam provocar qualquer mudança real".

Ygor Siqueira, da 360, reconhece que algumas partes podem causar estranhamento a evangélicos. "Em duas cenas falei assim: 'Pô, puxa mais para o espiritismo'. Nelas, o protagonista interage com duas pessoas mortas, algo incoerente com o credo evangélico.

Mas, para ele, a polêmica não atrapalha a carreira do filme. Pelo contrário. "O boca a boca está forte. Uns criticam, outros falam bem. A Octavia como Deus talvez choque no começo, mas depois passa".

Para divulgar o filme, ele convocou lideranças evangélicas, inclusive a cantora recordista de vendas Aline Barros. Ela foi ao Facebook elogiar a história que fala sobre cura "de um jeito surpreendente".

Para DeYoung, "vivemos numa era de crescente analfabetismo bíblico", daí a boa repercussão de "A Cabana". Ainda que crítico à narrativa, Galdino é contra boicotar o filme. Importa mais "examinar tudo e reter o que for bom, conforme orienta o apóstolo Paulo", resume.


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